quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Crianças agredidas se sentem culpadas

Por Jorge Alexandre Machado

Um estudo da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP), da USP, conclui que as crianças se acham culpadas pelas agressões sofridas, mesmo quando não fizeram nada. Segundo a Agência de Notícias dos Direitos da Infância (ANDI), na maioria dos casos de violência doméstica contra a criança, a mãe é a principal agressora. “Já os motivos da violência são vários: os pais descontam nos filhos seus traumas, problemas e frustrações. A violência é uma forma de tentar extravasar os problemas e o estresse da vida”, comenta a historiadora Mirian Botelho Sagim.

Conforme relata a ANDI, a tese de doutorado apresentada por Mirian analisou a violência contra crianças e adolescentes no ambiente familiar. Ela mostra que as agressões no ambiente familiar podem ter consequências na vida fora de casa e que as crianças e adolescentes agredidos tornam-se pessoas violentas. A criança considera aquilo normal, "pois não tem modelos positivos em casa como referência".

A pesquisadora avalia que "alguns casos de agressões crônicas evoluem para um quadro de tortura, no qual o pai ou a mãe agressores usam de métodos hediondos para punir os filhos. São casos de queimaduras, choques elétricos, instrumentos de tortura, crianças amarradas, acorrentadas, entre outros. Muitos deles acabam no hospital, com fraturas, queimaduras e traumas profundos".

Outro ponto observado é que o impacto da violência psicológica é muito maior do que a agressão física. "A violência física dói, mas passa, e a criança acaba esquecendo. Já a violência psicológica fica na memória e a criança carrega consigo por muito tempo", esclarece Mirian.

Ela acredita que a formação de grupos de apoio à família, atuando nos bairros, evitaria o agravamento do problema. Segundo a pesquisa, "a conversa é uma das melhores formas de tratar o problema. As crianças e adolescentes entrevistados afirmam que o dia mais feliz do ano é, nesta ordem, o Natal e o dia em que não apanham".

A quantidade de episódios de violência contra a criança assusta, mas a prevenção não existe, só se atua quando há denúncias, maus-tratos, ou até mortes e, nesse caso, nada mais se pode fazer. Quem sabe chegará o dia em que no pré-natal, além dos exames de praxe, os pais serão submetidos a avaliação psicológica e se houver indícios de comportamentos tendentes à violência eles sejam submetidos a tratamento e acompanhados para a proteção dos que são os maiores alvos da agressão doméstica e ainda se sentem culpados por isso.

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