domingo, 19 de abril de 2009

Brasília, meu destino

Foto: Luciana Machado
por Jorge Alexandre Machado
REEDIÇÃO EM HOMENAGEM AOS 50 ANOS DE BRASÍLIA


O asfalto parecia rolar velozmente sob meu olhar estático e distante, enquanto os pensamentos ricocheteavam entre as imagens de um Rio de Janeiro que ia ficando pelo caminho e uma cidade tão longe e desconhecida que assombrava os meus sonhos adolescentes.

Entardecia, quando olhei para a porta do ônibus, antes de embarcar naquela viagem insólita, e estremeci ao acompanhar o motorista selar o meu destino em tinta branca: RIO/BRASÍLIA. Quando virou para mim, eu senti escárnio em seu sorriso. O que seria de mim? pensava. O que seria do Rio de Janeiro sem mim, pretensioso, me perguntava. O que seria Brasília? calculava.

Sabia só que era a capital inacabada de um país torturado e emudecido pela ditadura daqueles anos 70 que começavam. De imagens, só aquelas da inauguração da cidade na Revista Manchete. Ali, o Congresso, com seus pratos fundos, era uma obra que me enchia de admiração e respeito. Ao lado, o fundador, com seu sorriso largo e os olhos cerrados, parecia não querer encarar o que fez comigo e com o Brasil. Capital é o meu Rio de Janeiro, esculachava-o.

Na serra de Petrópolis pude conhecer e admirar a mata atlântica, não só pela beleza da floresta nativa, mas pela garra em ainda resistir em suas raízes e não sair de lá. Dentro do ônibus, os passageiros se tornavam mais íntimos e muitos planos eram arquitetados em uma babel ensurdecedora. A esperança na nova terra era o único tom que parecia inteligível naquela algazarra sem fim.

Em Juiz de Fora, ao descer na primeira parada e olhar ao redor, senti no solo mineiro a sensação de liberdade que acho que só os viajantes conhecem bem. A liberdade de ir, ainda que não voltem. A liberdade de descobrir, a liberdade de conhecer, a liberdade de mudar.

O queijo de João Pinheiro, saboreado no balcão da mercearia, em meio a um “causo” contado pelo comerciante, com sotaque que mais parecia língua estrangeira, mexeu com minhas certezas e arrogâncias. Havia um mundo além de mim, além do meu, estrada-além.

Reembarquei já com gosto de viagem. Atrás de mim um garoto recém-entrado na adolescência não parava de citar as capitais de quase todos os países do mundo e as alturas dos picos mais esdrúxulos e desconhecidos de meu universo cultural. Como ele conhecia tudo isso, guardava na cabeça e ainda vociferava impune? entediado, eu me indagava.

Ao passar por Belo Horizonte, resolvi fazer comigo um jogo de observação das pessoas que no quadro da janela se multiplicavam. Elas, indiferentes à minha sorte, transitavam suas vidas naquelas avenidas largas, naquela manhã que também clareava a minha mente para as diferenças culturais e para a diversidade desse país que havia horas eu percorria extasiado.

Paracatu foi a última parada. O momento em que meu coração disparou ao me dar conta de que, na próxima descida, meus pés já incrivelmente intumescidos fincariam definitivamente na nova capital. Mas, estranhamente, o gosto da viagem havia me mudado um pouco. Os rios e riachos, florestas e cerrados, mineiros e goianos, montanhas e planaltos tinham mudado algo dentro de mim.
Ao entrar em Goiás, o cerrado me sobressaltou e voltei a temer pelo meu destino. Aquelas figuras tortas, secas, em meio a um horizonte nunca visto e a perder de vista me causavam aflição e solidão. Onde estão as pessoas? especulava. Com os pés mais inchados, procurava novas paisagens, mas não havia. Aos meus olhos, só cerrado e aos meus ouvidos aquele garoto a discursar sobre as características daquela vegetação e da região, a meu ver totalmente inóspita.

Entardecia de novo quando o ônibus entrou pelo eixão sul e me apresentou Brasília com seus traçados mágicos, com seu astral misterioso, com sua acolhida, naquela época, um tanto fria. Despejou-nos na Rodoviária. Nós, cambaleantes e exaustos, seguimos para a Asa Norte, nosso novo lar. No caminho perguntei ao meu pai: que monumento é esse maravilhoso? Somente após estrondosas e sarcásticas gargalhadas de todos em volta pude saber que era apenas a lua que naquele mês de março se debruçava no horizonte, próxima àqueles pratos fundos que agora não mais tinham ao lado, nem em lugar algum do planalto, o fundador da Capital. Senti remorsos pelos esculachos.

Hoje, por entre nuvens muitas vezes negras, outras vezes brancas, meu olhar se detém no traçado belo, no desenho mágico de uma cidade que me conquistou. No formato incrível do plano que se fez piloto de meus planos, o sinal da cruz é o agradecimento ou louvor a essa viagem eterna que é morar em Brasília.

E quando o avião toca no solo dessa capital, em cada viagem que faço por todo o país, sinto sempre a emoção daquela primeira viagem. A mesma sensação de liberdade de ir, mas com a certeza de sempre vir e ficar por aqui.